Sobreviver às ausências, Por Akácia Rybeiro
Sobreviver às ausências
Por Akácia Rybeiro
Poderia
escrever uma elegia contundente sobre a falta que os outros fazem; escrever
cartas e cartas sobre a dor de estar distante de quem se ama e a presença da
ausência de quem se quer por perto, sempre.
No
palco da vida a dor mais profunda é aquela que se sabe que não terá nunca mais
a oportunidade de ver, a não ser por imagens mortas e fixas, o rosto daquele a
quem se amou com profunda loucura.
A
saudade corrompe como traça, profana, cava em nós um buraco negro que engole
toda a força disponível para caminhar, e se vê condoído, aviltado, isolado de
si mesmo. As paredes fecham-se em volta, a escuridão torna-se tão densa que
quase podemos tocá-la.
O
dia antes límpido e ensolarado torna-se cinza, vazio, frio, desconcertantes,
tão desconcertantes que o eco dos lamentos dos solitários se embrenha pelas
paredes, vazam pelos corredores e terminam por se alastrarem por debaixo das
portas até as ruas.
É
preciso força, ânimo para sobreviver às ausências diárias, para que no fim um raio
de sol possa nos enternecer novamente e tudo se torne ao menos apaziguado, e se
não for o bastante, o suficiente suportável para se ter paz.

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