Homenagem à Dona Sebastiana Fernandes Cardoso e à Casa Familiar Rural que leva seu nome!

Folhas ao vento
Por Akácia Ribeiro




Quando se abrem as gavetas do tempo e ali se encontram as alegrias de outrora, que corroboram com o que se vive no presente, para muitos é possível dizer que se é feliz.

O perfume da felicidade como folhas ao vento se espalha pelos cantos, atravessa janelas, fios, percorre ruas e encontra pessoas dispostas a abraçá-la, pois até para ser feliz precisamos de coragem.

Hoje minha homenagem vai para uma mulher de fibra, de coragem, de disciplina, a ela meus votos de eterna gratidão, pelo que sou e pelo que fui, minha falecida mãe, Sebastiana Fernandes Cardoso e ao meu pai Ludgero Ribeiro da Silva, ambos educadores e pioneiros.

No Paraná, mais precisamente no distrito que escolheram para viver, chamado de Campineiro do Sul, no município de Rosário do Ivaí há uma escola, uma escola que merece perdurar pelos anos pelo trabalho que faz, esse estabelecimento têm o mérito de formar pessoas que vão tocar a sonata dos campos, dos campos sedentos que reverberam pela vida por cuidados, a Casa Familiar Rural, essa casa de saber, homenageou essa senhora, uma das moradoras que desbravou e que ajudou por longos anos a educação do lugar.

Meus sinceros agradecimentos a todos que se empenharam nesse intento e que deram a essa casa de saber, o nome de minha falecida mãe, educadora, mulher de garra, uma visionária.

O laboro se faz com coragem, a plantação com cuidado e astúcia para enfrentar intempéries, assim ela semeou, cuidou e colheu, o que com desvelo, prezava tanto quanto a vida, a educação.

Assim era Sebastiana Fernandes Cardoso, uma pessoa iluminada, cheia de ânimo, força e coragem, o que apresentava de ressalva e recolhimento tinha de determinação e força de vontade, nascida em 08 de abril de 1923 em Cerqueira César, no Estado de São Paulo.

Paulista de nascimento, mas paranaense de coração pela terra que a acolheu, mais precisamente por um pedaço de chão, “Campineiro do Sul”, naquele distrito, antes pertencente ao Município de Grandes Rios, no Paraná, berço onde a calmaria e a esperança se faziam solicitas, o casal Sebastiana e Ludgero Ribeiro da Silva, seu esposo, decidiram trilhar novos horizontes. Em 1985, esse distrito passou a pertencer ao recém-criado município de Rosário do Ivaí, que havia desmembrado de Grandes Rios.

Nessa história, Sebastiana não existe sem Ludgero e Ludgero não existe sem Sebastiana. Juntos viveram mais de 40 anos de alegrias e tristezas compartilhadas.
D. Sebastiana e Sr. Ludgero

No ano de 1971, após terem vendido o pequeno comércio adquirido em São Jerônimo da Serra, eles aportaram no distrito de Campineiro do Sul, comarca de Grandes Rios no Paraná, onde comprou um sítio, de um alqueire, a terra passou a ser chamada de, “Chácara Campineiro do Sul”, da gleba Ribeirão Bonito, distrito de Campineiro do Sul, no município de Grandes Rios, assim que chegaram, seu Ludgero retornou às atividades agrícolas acompanhado de dona Sebastiana, que também amava a terra e os frutos, que ela de bom grado cedia aqueles que a tratavam com amor. Esta mesma terra foi vendida em 1976, para a compra de um lote dentro do distrito de Campineiro do Sul.

Com empenho e dedicação, junto a outras pessoas da comunidade, professores e colaboradores ajudaram a ampliar a Escola Municipal Osvaldo Cruz, conseguiram formar várias turmas, e de início o Sr. Ludgero trabalhou como auxiliar de inspetoria, ela como professora. Com o desenrolar dos anos, a dedicação, quase que uma devoção, Dona Sebastiana de vice-diretora, passou a diretora e seu Ludgero de inspetor de alunos a vice-diretor.



Escola Osvaldo Cruz
Persistindo em seus trabalhos junto a outros professores, em disseminar o ensino no pequeno patrimônio, investiam em cursos, e em trabalhos que faziam com que o distrito prosperasse. Deram continuidade com o trabalho no MOBRAL (projeto que equivale à educação de jovens e adultos), bem como o trabalho com o ensino regular.

No entanto, o que era a marca registrada dessa dupla e da equipe que faziam parte, eram os desfiles, geralmente no dia 7 de setembro ou datas especiais, como o aniversário do patrimônio e comemorações cívicas. Esses pequenos momentos de contemplação e alegria eram celebrados com empolgação pelos moradores, o que contava com euforia e grande participação coletiva.


Era o momento em que o local parava para a diversão e o reconhecimento do trabalho de todos. As fotos não possuem datas precisas, mas mediante documentos calculou-se que foram tiradas entre os anos de 1973 a 1978.



Além dos desfiles, também ocorriam grandes almoços em datas comemorativas, o que reunia alunos e professores numa celebração de paz, respeito e fartura.


Outras atividades eram as arrecadações de alimentos, materiais de limpeza, enfim, a comunidade abraçou o projeto idealista e fazia doações à escola, que em partes sobrevivia com o dinheiro do governo e com o suor da pequena comunidade.
Encontros com os professores eram comuns, dinâmicas, a equipe se dedicava em fazer o melhor.


A época de ouro no pequeno patrimônio atingiu o seu auge, quando mediante empenho de muitas pessoas conseguiram transferir a escola, que antes era de madeira para outra feita em alvenaria, agora o “Ginásio Municipal Osvaldo Cruz”, uma grande conquista para todos e para a qualidade de vida dos alunos, que agora tinham um prédio com melhor infraestrutura para estudarem, e em seus salões ocorriam festas e formaturas da época.

Uma das características dessa grande mulher era a disciplina, seus avós de origem italiana, traços que herdou dos pais e de sua criação mais rígida. Gostava da ordem, do respeito, da organização e da ética. Essa educação transmitiu a filha que amava e a ela procurou passar todos os princípios que nortearam sua vida, até mesmo sua paixão pela educação e pelos livros, sempre que podia adquiria livros para o acervo da biblioteca, também inseriu a filha no mundo da literatura, de Cecília Meireles a Artur Schopenhauer, nada escapava aos seus olhares críticos e centrados.

O destino começou a ser ingrato e em alguns momentos ficou doente e teve que se afastar do trabalho. O esposo Ludgero persistiu na escola no tempo em que ficou afastada. Nesta época ele iniciou seus primeiros passos rumo à política, política que abraçou com firmeza, mas por ela não foi abraçado. Sem ter como custear sua candidatura e o pouco apoio, sucumbiu ao desejo e esse sonhador viu-se às margens de seu próprio sonho.

Enquanto ele lutava pela eleição, dona Sebastiana lutava com sua saúde já debilitada, em 1982 seu Ludgero torna-se 2º suplente do vereador Antonio Leonardo da Costa, a lógica prevalece e ele nunca veio a cumprir nenhum mandato. Em 1983 Dona Sebastiana se afasta novamente do trabalho para tratar-se.

No ano de 1987, mediante ajuda de alguns amigos, seu Ludgero, mais uma vez, consegue abraçar um novo projeto, o que foi um alento para a família. Esse novo projeto trouxe ao patrimônio um posto telefônico, o que permitia uma comunicação acessível a todos, esse trabalho o retirou da árdua labuta, para fazer o que fazia de melhor, comunicar-se.

A saúde de Dona Sebastiana não era mais a mesma, mas sua alegria e amor pela vida, pelo campo, pelas plantas permaneciam. Dedicada à criação da filha que com esmero crescia dia a dia, Dona Sebastiana e Seu Ludgero seguiam repassando a menina o que acreditavam, para que no futuro pudesse se virar sozinha.

Em 1989 seus tratamentos prosseguiam na Santa Casa de Misericórdia Nossa Senhora do Rosário, em Rosário do Ivaí, lá recebeu os cuidados que foram cabíveis. Em novembro de 1990 foi encaminhada para tratamento no hospital da Providência em Apucarana.

Com sérios problemas gástricos, fragilizada pelo problema na vesícula e com o eczema avançado, Dona Sebastiana não perdia a alegria junto à filha, nem a fé que não abandonou até os últimos segundos.

Suas peregrinações aos hospitais encerraram no dia 04 de junho de 1992 às 20h10min, no Hospital situado à Av. Brasil, nº 1725 em Ivaiporã no Paraná e ela foi para junto de Deus. Para os que ficaram seu Ludgero e a filha com 11 anos, o mundo tornou-se mais insosso e triste, aos amigos a perda de uma pessoa que sempre lutou pelos outros, para os companheiros do magistério a despedida de uma desbravadora. Muitos participaram do velório naquela tarde triste e soturna do dia 05 de junho, os amigos a acompanharam até sua última morada, o cemitério de Campineiro do Sul.

Sua morte não outorgou ao esquecimento o seu legado, muito pelo contrário, a filha passou por um período difícil, mas que foi suplantado pelos ensinamentos da mãe e seguiu em frente apesar da saudade, seu Ludgero nunca se recuperou totalmente, veio a óbito em 2008 devido a um quadro agravado de pneumonia, que o levou a uma insuficiência.

O que ela semeou ainda dá frutos, a filha procurou seguir os passos da mãe e é educadora, aprendeu com sua coragem, a ter força para persistir, também trouxe consigo o dom que a mãe despertara, “a escrita”.

E seu nome ecoa pelo tempo, traz recordações dos tempos de ouro em que se podia ouvir o riso, o som dos surdos, das clarinetas, dos bombos, das caixas de guerra, dos pratos a ressoar pelas estradas poeirentas enquanto o aplauso e alegria do povo davam vida a festa. Nesse momento de deleite e de encanto todos se faziam iguais, se impunham o mesmo respeito e construíam para o bem, a cidadania do lugar.



Sebastiana Fernandes Cardoso, que seu nome seja uma elegia de amor à terra, à natureza, aos animais e ao ensino, que nele se inspirem as novas gerações a não desistir da luta quando a batalha é árdua, que procurem retirar da terra somente o que pode dar.

Que essa casa de saber, Casa Familiar Rural Sebastiana Fernandes Cardoso, que em seu mérito deu-lhe seu nome, possa ser o templo do saber que almejara, anos atrás, quando vislumbrou o conhecimento para seus alunos.

Tomo emprestadas as palavras de um mestre, que também vislumbrou a educação para todos, Paulo Freire, e serve de auxílio para descrever seu trabalho, “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”.

Ela acreditava nessa mudança e foi pela educação que persistiu lutando e acreditando. Dona Sebastiana Fernandes Cardoso, minha mãe, que sua generosidade em se doar, seja mérito de batalha àqueles que destemidos se põem ao passo do laboro, pois a história é escrita por pessoas como você, que nunca deixaram de acreditar no bem a todos.

Fotos da Casa Familiar Rural Sebastiana Fernandes Cardoso

Turma que se formou em 2016 junto ao professor Cláudio Freire - a foto foi tirada em 2015


Foto da entrada da Casa Familiar Rural Sebastiana Fernandes Cardoso


Palestra realizada pela EMATER em 2016.

Visita de estudos dos jovens da CRF à propriedade do Sr. Salvador.

Formandos 2016.

Parabéns aos professores e alunos da CFR Sebastiana Fernandes Cardoso, que muitas turmas possam persistir ao longo do tempo, aprendendo e replicando os conhecimentos que ali adquiriram.

Espalhe conhecimento, compartilhe!
Meus agradecimentos a todos!

Akácia Ribeiro




Comentários

  1. Olá amiga Akacia,
    Sua mãe (Dona Sebastiana) deve estar orgulhosa de você, parabéns pelo texto...
    Agora nossa CFR tem um histórico completo.

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    1. Cláudio, quero agradecer-lhe mais uma vez, primeiro por avisar-me sobre o presente de ter o nome de minha mãe na Casa Familiar, depois, pelo apoio, e mais por seu empenho como professor nesse projeto. Que Deus o abençoe, sempre! Muitas alegrias.

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  2. Que lindo e emocionante comadre seu texto sobre seus pais e essa homenagem feita a sua mamys.
    Seus pais devem ter muito orgulho da filhota, pois valeu a pena todos os ensinamentos que lhe ensinaram.
    Uma delícia ver o rostinho de sua mãe, ainda não tinha tido este privilégio.
    É necessário compartilhar o texto muito bem escrito e uma história incentivadora.
    Parabéns bjuuuu

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    1. Eu é que agradeço comadre, por seu apoio aqui, realmente meus pais fizeram muito pela comunidade de Campineiro do sul, não só eles, mas a comunidade se empenhava muito pelo lugar. E espero de coração que a educação continue a transformar vidas e trazer às pessoas, mais conhecimento e humanidade. Obrigada.

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  3. Nossa Akassia, não conhecia essa parte da história de sua familia. Fuquei emocionado! Parabéns!
    Que essa históra de amor e dedicação pela educação continue, pois enquanto houver pessoas como seus pais e agora como voçe ainda haverá esperança de pessoas mais humanizadas e de futuro para socieade.

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  4. Respostas
    1. Obrigada pelos comentários compadre, sei você que está firme nessa jornada educacional, em nossas conversas observo seu empenho aí em Atibaia, quando abraçamos essa causa dificilmente conseguimos abandoná-la, e é de pessoas que queiram fazer a diferença, que precisamos. Abraço.

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  5. Que orgulho pra você ter uma base de tanto empenho, que possamos tomar como exemplo.
    Parabéns pelo texto, tenho gostado de acomoanhar.

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  6. Lih, meus agradecimentos por seu comentário, fico feliz em saber que o trabalho de minha mãe não foi esquecido, então temos mais forças em prosseguir nessa tarefa de ensinar. Obrigada por acompanhar o blog, precisamos de pessoas que leem, que interagem, que demonstram sua opinião e querem tornar nosso mundo um pouco melhor. Abraço.

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