Jogos mortais IX, aff!!!

Que nós copiamos várias coisas de outros países, isso é fato, mas daí copiar até mesmo um jogo, em que o jogador (a) além de não ganhar nada, ainda perde a vida, demonstra que somos mesmo um país de terceiro mundo, e, para sair dessa triste classificação demoraremos um bom tempo.

Geralmente escrevo crônicas, é um dos gêneros que aprecio muito e que permitem uma crítica mais voraz, mas hoje, dada a dramaticidade do caso optei por elaborar um conto, e assim, quem sabe, conscientizar nossos jovens que, carentes de tudo, estão agora até mesmo carentes de si, de Deus, pois a pessoa deve estar muito fora de si e se achar uma verdadeira porcaria para cair num jogo barato e sem propósitos como esse. 

Mas, meu olhar hoje, não ficou tanto na vítima, que para mim é mais um algoz do que vítima propriamente, e sim nas vítimas da vítima, nos pais, que deliberadamente sofrem com as consequências dos atos impensados de seus filhos e filhas.

Se o que conto tem semelhança com a realidade, é mera coincidência, geralmente a vida imita a arte e assim sucessivamente, vamos ao conto, amanhã a crônica e minhas considerações. Ótimo fim de semana.


Céu de outono

Por Akácia Ribeiro

Manhã de abril. Acordei assustada como se a casa estivesse desabando, e estava. Olhei para o lado e ele dormia serenamente, o sono justificado pelo trabalho.

Eu estava banhada em suor, minhas mãos estavam avermelhadas e, em alguns pontos meus dedos arroxeados. Percebi que as marcas tinham sido feitas durante a noite, enquanto apertei as unhas de encontro às mãos.

Que pesadelo eu tivera para apertá-las assim, com tanta força?

Ainda cambaleante fui até a cozinha, tomei um copo de água, que sorvi como uma caminhante do deserto, a sede que me invadia deixara minha garganta ardente pela secura.

Arrastando os chinelos caminhei pelo estreito corredor, parei ante o relógio, mais uma vez, parado às quatro horas da manhã.

Olhei sob o aparador e busquei pelo celular, cinco e vinte, continue a caminhada até o seu quarto, a porta fechada e nela o aviso, “Silêncio, não entre sem bater”, dei três batidinhas leves, não queria acordá-la ainda.

Mas, meus olhos ansiavam por vê-la.

Abri de leve a porta e um vento gélido rufou sob meus cabelos, teci um comentário ácido sobre a janela estar aberta em fim de abril, o outono parecia antecipar o inverno.

A fraca luz que adentrava pela vidraça escancarada não permitia que vislumbrasse o quarto por inteiro, procurei pelo interruptor, quando acendi a luz, vi que você não estava lá.

Dei uma risada nervosa, a cama estava como se não tivesse sido tocada, o quarto numa perfeita ordem de camareira, e havia um cravo branco sob um solitário. Gelei.
Você não gostava de flores, talvez gerânios quem sabe?

Papoulas talvez? No entanto, a maioria delas não eram suas favoritas, eu não entendia porque você não gostava delas.

Olhei em redor procurando algum sinal de que estivera ali aquela noite, mas a frieza do momento não permitia que eu raciocinasse.

Do décimo andar, ouvi as sirenes, percebi que o som voava por entre o vento revolto. De repente um nó no estômago e pressenti o que para mim, jamais seria óbvio, a respiração tornou-se ofegante, senti como se estivesse devorada por dentro, comecei a engasgar com a quantidade de saliva que se aglutinou em minha boca.

Caminhei feito uma sonâmbula, que pretensiosamente sabe o que está fazendo, fui em direção à vidraça escancarada, com sua cortina como línguas de fogo a bramir em minha direção.

O barulho das sirenes estava cada vez mais perto e ávido, meus pés eram de astronauta sob uma lua não habitada, as lágrimas como num vulcão adormecido começaram a rolar, de início, fracas, mas de repente, senti como se o universo me faltasse, e quando toquei no parapeito da vidraça ouvi burburinhos e a sirene parou logo abaixo cavando um fosso.

Eu não tinha nem mesmo coragem de colocar a cabeça para fora, mas o desespero de mãe me impeliu a olhar para baixo. Junto ao sol que brotava vida ao mundo, meu grito de desespero rasgou a manhã fria, a multidão que cercava o corpo olhou para cima como abutres a farejar a caça.

Gritei, gritei, gritei, gritei.

Enquanto os soluços tomavam conta de meu corpo, enquanto seu pai, que acordou de sobressalto, e, assustado me amparava, eu deslizava ao chão.

Ainda sonolento questionou o que acontecia, que forças eu tinha para falar, mas pressentindo o pior comentou sobre o quarto arrumado e o cravo, então retirando do resto de forças que me sobrara, eu apontei a vidraça que se escancarava para a morte.

Quando seu pai expulsou o grito com seu nome, um grito expelido pela dor, sua reação não foi de decair-se, ele correu, ouvi quando atravessou o corredor, pegou a chave e se lançou porta afora.

Decaída de onde eu estava era consolada pelas lágrimas, os soluços, o medo, o vazio, o abandono. Num ímpeto pensei em ir com você, mas meu amor por Deus era maior, abracei-me aos joelhos, e, feito uma criança que se perde da mãe, e é dominada pelo medo expulsei a dor e chorei ainda mais.

O rito que segue não precisa ser descrito, pois o calvário que enfrentamos ao ser citado, já é opróbrio.

Única filha, único amor, será que erramos aí?

Vieram os questionamentos, as culpas, a dor inconsolável, o desespero, mas de todos eles, a culpa era o que nos consumia. Procurávamos saber onde erramos, onde te perdemos? Nem a terapeuta suspeitou de uma artimanha tão miserável.

A carta que encontrei dias depois, quando a polícia vasculhava seu quarto respondeu parte de nossas perguntas.

Tudo não passou de um jogo, um jogo diabólico e forjado para destruir pessoas e famílias, o mal não se compraz com uma família unida, onde todos se respeitam, não, o que ele precisa é de lares esfacelados, de vidas ceifadas e destruídas.

Porém, quem minha filha amada, quem em sã consciência jogaria com a própria vida?

Quem poderia ser incentivado e aceitaria um incentivo desgraçado como esse e não ouviria os conselhos do bem, quem abandonaria pais que só tentaram fazê-la feliz?

Nós falhamos em fazê-la feliz? Pois, se optou por se arriscar num jogo como esse é por que não era feliz.

Sua carta de despedida explicava o horário, cinco porque foi aos cinco anos que você considerou serem os melhores anos de sua vida, e quinze porque era a idade que você completaria no mês seguinte.

De que adiantava dizer que não nos sentíssemos culpados, que foi uma escolha impensada, não foi uma escolha, foi uma imposição de pessoas que criaram uma aberração para brincar com o sentimento de jovens, que confusos, optam por situações inexplicáveis à compreensão humana.

Acredito que os idealizadores, se é que posso chamar de idealizadores, não pensaram que um jogo miserável, maldito como esse, fosse realmente ter adeptos.
Que sociedade é essa em que vivemos, que nossos jovens por escape optam pelo suicídio.

Minha dor é enorme, não sei se conseguiremos sem a ajuda de remédios ter uma noite tranquila novamente. Tenho pesadelos com você gritando, acordo sempre às quatro da manhã, religiosamente as quatro e perambulo até o dia amanhecer.
Já nos mudamos de prédio, optamos por uma casa e com um lindo jardim, você iria detestar.
Talvez, esse já era um sinal? Quem minha filha, quem Suzi detestaria flores?

Eu não vi os sinais, sua terapeuta não viu os sinais, seus amigos não viram os sinais, nem seu quase namorado percebeu algo de errado.

Num domingo à tarde, um professor ligou para dizer que estava com uma caixa nas mãos e que ela fora endereçada a ele, mas que deveria ser devolvida ao destinatário, que éramos nós.

Até o vídeo era parte do jogo, como pode brincar conosco dessa forma, arrasar nossos corações, dilacerar nossas vidas por um jogo, uma praga que quem criou nem dá as caras, ele age como um covarde que é e não assume sua culpa.

No vídeo você estava com a roupa da festa, a escolhida por você para comemorar seus quinze anos, a mesma que usou quando se jogou do prédio.

Além de explicar que sua morte não era a última etapa, mas o vídeo sim, pois você poria fim a esse ciclo vicioso. O vídeo entraria no ar em seu blog, no dia 15 de maio, às 05h15min, e serviria de alerta a todos, pois não há sinais, tudo faz parte do jogo e a discrição é o primeiro elo da cadeia, que servisse de alerta para pais, que estavam dispersos na felicidade de acreditar que, filhos e filhas estavam bem, enquanto eram corroídos pela traça, e ocos por dentro seguiam perambulando como mortos-vivos.

Acabar com o jogo, não minha filha, você agora é parte da estatística, um número num amontoado de papéis, sem rosto, sem forma, você optou por ser alimento dos vermes antes de cumprir sua bela jornada por aqui.

Eu sinto muito por você não usar o azul como sinônimo de vida, contudo quem toma como talhe a morte, na escuridão profunda lançou-se a sorte.

Eu sinto muito por não ver em seus olhos, minha querida filha, a morte.

Fim
Leia, compartilhe!
Obrigada a todos!



Comentários

  1. Não esqueci de quando eu era adolescente, dos amigos, dos jogos de futebol, das namoradas, das quermesses, das festas animadas, gosto muito da fase que estou vivendo, mas minha adolescência e juventude foram muito boas, e fui educado para saber dizer não para coisas que não me faziam bem, hoje tenho a impressão de que além de não desenvolverem amor próprio, nossos jovens gostam dessas ações banais e agressivas. Penso que há um grupo de fatores que contribuem para essa prática nociva, pois esse é só mais um artífice, mais um joguinho, onde irão parar os nossos jovens?

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