Hoje é dia de pensar!

Heranças do sangue

Por Akácia Ribeiro


Museu Oscar Niemeyer 2012
Segue-se o rito de contrição entre a mão que balança o berço e o futuro “da nação”, (danação, palavra discutida no textoQue País é Esse? Uma discussão sobre nossas raízes!”) desde os primórdios, a literatura, a psicanálise, a psiquiatria, a filosofia, a ciência, a religião, enfim, as diversas áreas do conhecimento discutem o papel dos pais, e, principalmente da mãe na vida de seus filhos.

De Raduan Nassar, com Lavoura Arcaica, a Milton Hatoum, com Dois irmãos, persiste a tradição da hidra que com suas cabeças enlaça, sevicia e desmorona sobre o passante, desgraça e torpeza, essas mães e pais como citadas na literatura, afoitos ao protecionismo, com seu amor permissivo e indolente levaram seus filhos e a família à ruína.

Se a situação ficasse apenas na literatura estaríamos salvos, mas a vida imita a arte, e assim por diante, o retrato da sociedade é mais torpe do que a mais vil literatura.

Muitas das sevícias, das mumunhas, das pequenas mazelas que nos acompanham são despertadas, simplesmente pelo crescer, o observar, o conviver e vamos herdando uma coisinha aqui, um ranço ali. No entanto, a educação provinda do berço, de nossas mães e nossos pais é responsável por muitas de nossas heranças, as abjetas e as afortunadas.

Quem nunca presenciou uma discussão de uma mãe, que “no alto de sua maturidade”, grita histericamente com uma criança, que a deixou sem ações na rua, e que agora, pensa que aos gritos vai lhe impor respeito, o que consegue é o de sempre, pessoas que passam e tem a certeza de que ainda não estava preparada para ser mãe, e da criança, que olha para a mãe com olhar contrito, na certeza de que ambas se encontram no mesmo patamar.

Segue-se o rito da corrente, que viva e personificada, se enlaça pelos tornozelos, se prende feito víbora pronta para devorar a presa, foi mãe aos 16, a filha foi mãe aos quinze.

Não é somente no quesito segurança, saúde e educação que estamos perdendo, nossas meninas são mães cada vez mais despreparadas, antigamente as meninas se casavam jovens sim, obrigadas a aguentar um marido que não queriam, a dormir com um homem muitas vezes, 20 anos mais velho, e, mais tarde, trocar-lhes as fraldas, mas eram obrigadas, hoje elas optam por essa condição de desmantelo.

O bonito do namoro era o conhecer, a ânsia pelo esperar, o desejo de compartilhar, de vivenciar, hoje, o beijo é só um prenúncio de fel, corrompidas, nossas meninas seguem em desalinho para pegar o diploma do fracasso, algumas conseguem mediante luta e esforço romper com os grilhões, mas a grande maioria sucumbe à própria sorte.

Os filhos que presenciam o sangue, só herdam o que o sangue pode oferecer, mais derramamento do mesmo.

Falta de informação, muito pelo contrário, o programa preferido de muitas brasileiras é a novela, exemplo de diversas mixórdias e de todo tipo de situação, que muitas impõem a seus filhos desde os menores, exemplos vis elas encontram aos montes, mas de que adianta se veem e não compreendem o erro, ou muitas seguem como exemplo.

Temos mais analfabetos funcionais, do que leitores de fato, quando não se tem preguiça de ler, se leem, não compreendem, a situação é caótica.

Agora o revés de mercado é que a carne que era prontidão de abate, agora quer ser abatida. O que lutamos por direitos, agora o querem depostos, segue-se o rito do sangue, as heranças do sangue, os filhos do sangue, se a mãe foi assim, será com a filha, se o pai é assim, o filho também o será,  assim perpetua-se a corrente do esfacelamento.

As mães e os pais são sim a parcela maior na responsabilidade pelo que o filho (a) torna-se quando adulto, quando se é consciencioso, permissivo, redundante, sem autoridade, pois não adianta dizer ao filho ou filho que não faça se você o faz, se o primeiro exemplo é curtido no engodo, como querer colher rosa, no deserto.

Claro que há casos e casos, mas em grande parte o que se vê é que a educação falha, gera pessoas fracas, sem coragem, temerosas, indecisas, amedrontadas, mentirosas, biltres, falsas, é bíblico, “Instrui o menino no caminho em que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele”. Pv 22: 6, se o ensina a perambular pelas torpezas não cobre dele retidão, você só dá o que tem.

Do que precisa? Se soubesse não poria em discussão, o que sei é que enquanto nossa educação estiver naufragada pela indisciplina e pela permissividade, não haverá meios de solucionar nada, enquanto nossas meninas e mulheres não tomarem consciência de que além da carne, há o ser que vive socialmente, não haverá refrigério para as feridas.

Uma coisa é certa, precisamos de pessoas como você, que está lendo e que está formando uma opinião, contra ou a favor, qualquer uma que seja, que retome uma questão, que gere uma discussão, uma dúvida, uma pesquisa, mas que frutifique algo bom, pois de engodo, de inércia e de incompreensão estamos cansados.

Se gostou, compartilhe conhecimento!
Muito obrigada a todos!

Para ouvir sobre o tema:

Elis Regina - "Como nossos pais" 


Comentários

  1. A cada dia seus textos promovem mais reflexão, que os jovens, adultos, pais e mães leiam e queiram mudanças e mais justiça.

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    1. Meu querido amigo, companheiro de jornada e leitor assíduo de meus textos, obrigada por estar sempre por aqui e por seus comentários. Te amoooooooooo!

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  2. Parabéns Akácia pelo tema abordado, creio que seja de grande complexidade, já que hoje vivemos com uma liberdade que não sabemos aproveitar para de fato fazemos algo importante em nossas vidas. Somos hoje momentâneos, e quanto a críticas, intolerantes.
    Então, como educar crianças para serem sociais se segimos a corrente do sangue.
    Somos de fato rebeldes e não livres.
    Me identifico com seu texto, de maneira que, quando grávida, fiz um planejamento, de como eu educaria e criaria meu filho e hoje encontro dificuldades em seguir aquele planejamento, diante de tantas intromissões dos familiares e amigos próximos, "com os meus era assim, eu dava isso, não de broncas porque ele ainda não entende, a isso é frescura sua", enfim, a maior dificuldade que encontro é de como lidar com essas pessoas que fazem parte da educação do meu filho, sem entrar em conflito, a ponto de eles não fazerem mais parte da vida dele e da minha vida. Como quebrar a corrente de sangue daqueles que são ignorantes e não se permitem tentar o novo e abrir o horizonte para a criança ser diferente daquilo que somos?

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    1. Lih, palmas, muitas palmas por seu comentário, fiquei orgulhosa de você, de seu empenho em criar seu filho de acordo às suas convicções, mas é entre essas intromissões, que devemos ir além e demonstrarmos nosso esforço e dedicação em burlar os exemplos que não acrescentam, persista, leia, se informe, há um livro chamado "Criando meninos", que é ótimo e que recomendo, você está no caminho certo, não há manuais, mas há o bom senso e o desejo em fazer a diferença, nessa missão de educar, os outros sempre terão uma pitaca, aprender a ouvir, a trazer o que é bom e excluir o que não serve é uma tarefa difícil, mas possível, sempre converse muito com seu filho ou filha, e saiba impor limites, mesmo que os outros sejam contra, você é a mãe e deve sempre pedir a orientação de Deus para educá-lo, discernimento e força, pois nos dias de hoje ser uma mãe com princípios é como remar contra a maré. Mas não desista e siga em frente. Muito obrigada e grande abraço.

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